IA
Por Equipe Nortix ·
Alargar a avenida não encurta a viagem se o cruzamento continua um só. Os carros chegam mais depressa à esquina e esperam ali, em fila. Com a IA na empresa, acontece algo parecido.
A IA aumenta a produtividade de quem a usa; a da empresa depende de onde o trabalho espera depois. Um estudo com empresas de software mediu os dois lados, e o que achou mostra onde a fila se formou. O que ele mostra, e o que não mostra, vem a seguir.
O estudo se chama "Artificial Intelligence in the Firm: Bottlenecks in Software Production". Os autores são Fiona Chen e James Stratton, doutorandos da Universidade Harvard. É um Job Market Paper, um working paper de doutorando, sem indicação de revisão por pares em periódico; a versão atual é de 4 de agosto de 2026, e a primeira, de 7 de janeiro de 2026.
Os dados vêm da Jellyfish, uma plataforma de análise de engenharia, e são de clientes que consentiram o uso em pesquisa. A Jellyfish leu o manuscrito só para verificar se ele não revelava informação proprietária e não o revisou quanto ao conteúdo científico.
O financiamento declarado no artigo vem de três fontes: a Stripe Economics of AI Fellowship, um programa da Harvard Kennedy School e o Schmidt Sciences AI at Work Program. Quem forneceu os dados vende medição de engenharia, e vale saber quem mediu antes de ler o que se mediu.
A amostra tem 725.938 trabalhadores em 718 empresas, de janeiro de 2021 a março de 2026: cerca de 300 milhões de eventos de trabalho, entre atividade no GitHub, issues do Jira e eventos do Google Calendar. Os autores compararam as empresas pelo momento em que cada uma adotou ferramentas de IA de código, e mediram separadamente os assistentes e os agentes. Os números deste artigo são do efeito dos agentes.
Os dados de trabalho foram cruzados com dados do LinkedIn, de onde vêm os números de emprego. O desenho tem nome técnico, diferenças em diferenças escalonado: em termos simples, compara-se o que mudou nas empresas depois de adotar a ferramenta com o que mudou, no mesmo período, nas que ainda não tinham adotado.
Um limite, dito logo: são times de software. Não é amostra de pequenas e médias empresas, nem do Brasil, nem de funções fora de software.
Começamos pelo que confirma a crença, porque ela tem fundamento. Nas 718 empresas do estudo, com agentes de IA, as linhas de código adicionadas subiram 1.494 por trabalhador por mês, 30% sobre a média-base de 5.017. Os commits, que registram cada alteração no código, subiram 20%, e os pull requests, 23%.
Pull request, ou PR, é o pedido para incorporar um trecho de código ao produto. Antes de entrar, alguém precisa conferir e aprovar. Vale guardar esse detalhe, porque o resto do estudo gira em torno dele.
Os autores escrevem que as duas tecnologias, assistentes e agentes, aumentam a produtividade de codificação. Quem acredita que a IA aumenta a produção de quem a usa tem razão, e o estudo concorda. Dois cuidados, ainda assim: a unidade é o trabalhador (worker, no original), e não o engenheiro; e linha de código mede volume, não valor.
Para medir trabalho concluído, os autores usaram as issues do Jira, unidades de trabalho de engenharia consideradas concluídas quando o código associado vai para produção. É o mais perto que o estudo chega do que a empresa de fato entregou.
Com agentes, essa medida subiu 0,12 issue por trabalhador por mês, sobre uma base de 3,67, sem significância estatística. O intervalo de confiança de 95% permite descartar, para os agentes, um ganho maior que 12% da média-base. O tamanho de cada pull request não mudou de forma significativa, e não há sinal de mudança no tamanho das issues, o que afasta a leitura de que cada entrega teria ficado maior.
| Medida, por trabalhador por mês | Média-base | Efeito dos agentes de IA |
|---|---|---|
| Linhas de código adicionadas | 5.017 | +1.494 (+30%) |
| Commits | 22,58 | +4,57 (+20%) |
| Pull requests | 5,34 | +1,22 (+23%) |
| Trabalho concluído (issues do Jira) | 3,67 | +0,12, sem significância estatística; ganho acima de 12% descartado |
"Sem aumento significativo" não quer dizer que a entrega caiu, nem que ficou parada. Quer dizer que, se houve ganho, o estudo não consegue separá-lo do acaso, e que um ganho acima de 12% está descartado. A avenida alargou; a viagem, até onde o estudo consegue ver, não encurtou na mesma medida.
Se a produção subiu e a entrega não acompanhou, o trabalho a mais ficou em algum lugar. O estudo olhou para o trecho entre a submissão do pull request e o merge, o momento em que o código conferido é incorporado.
Com agentes, esse intervalo subiu 3,45 dias sobre uma média de 7,03 dias, 49% a mais. A medida inclui a espera: são dias entre o pedido e a incorporação, e não horas gastas revisando.
A parcela de pull requests que recebe pedido formal de mudança era de 13,00% e subiu 11,84 pontos percentuais, quase dobrando a taxa, nas palavras dos autores. Pedido de mudança quer dizer que o revisor devolveu o trabalho com ajuste antes de aprovar; não indica erro nem defeito. Os comentários por pull request subiram 35%, e a parcela de trabalhadores que comentam ou aprovam ao menos um pull request no mês subiu 14% (4,14 pontos percentuais sobre uma base de 29,42%).
No resumo, os autores escrevem que os ganhos de produtividade não passam inteiros para o software entregue nem para o emprego e que, no caso dos agentes, essa transmissão incompleta reflete um ponto de espera na revisão de código: os tempos de revisão aumentam. Nas entrevistas qualitativas do apêndice, anônimas e identificadas só pelo cargo, um engenheiro de software sênior diz: "Dá para gerar funcionalidades muito mais rápido agora, mas elas ainda precisam ser validadas e aprovadas por humanos" (tradução nossa). É a fala de um entrevistado, não um resultado estatístico, mas descreve bem o cruzamento.
Esta leitura é nossa, não dos autores: a fila mudou de lugar e se formou onde o trabalho é conferido.
A saída que parece óbvia, pôr IA também na revisão, já estava em curso. Em março de 2026, quase 80% das empresas da amostra tinham usado ferramentas de IA no processo de revisão de código.
Ainda assim, só 23,3% de todos os comentários de revisão eram gerados por IA, e só 10,8% dos pull requests recebiam ao menos um comentário gerado por IA.
Os autores escrevem que o ponto de espera persiste depois da adoção dessas ferramentas e que os revisores humanos continuam a ter papel central. Essa afirmação se apoia nos dados descritivos e nas entrevistas, não num teste estatístico próprio. O estudo não estima o efeito da revisão com IA sobre a espera: não diz que ela encurta a espera, nem que não encurta.
O estudo não mostra que a IA não funciona: a produção de código subiu, e os autores dizem isso com todas as letras. Também não mede horas de revisão nem custo de retrabalho, e não fala de proposta, orçamento, post ou qualquer trabalho fora do software.
E não é um estudo da Universidade Harvard como instituição, nem artigo publicado em revista. É o trabalho de dois doutorandos, sem indicação de revisão por pares, e a versão citada aqui é a de 4 de agosto de 2026.
Ele também não serve de argumento para cortar equipe. Para os agentes, os autores estimam efeito zero preciso sobre o emprego total, descartando uma queda maior que 2,9%. A IA substitui tarefa, não substitui direção.
Daqui em diante, o texto é leitura da Nortix. Nenhum dado do estudo é sobre pequenas e médias empresas, nem sobre proposta, orçamento ou post; o que se leva do software para outros negócios é a forma do achado, como hipótese, e não o número. É uma hipótese para testar na própria empresa, e a última parte deste texto mostra como.
Numa empresa de serviço, boa parte do que a equipe pode produzir com IA é texto: a proposta, o orçamento, o post, a resposta ao cliente. Cada um desses passa, em algum ponto, por alguém que confere antes de sair, e muitas vezes esse alguém é o fundador ou quem responde pelo preço, pelo cliente e pela palavra da empresa. Essa conferência tem motivo: é o papel que segura o nome da empresa, e alguém precisa cumpri-lo.
Quando a equipe passa a produzir mais depressa, esse cruzamento continua um só. As propostas chegam mais cedo à mesa de quem aprova e esperam ali.
A equipe sente que produziu mais, e produziu; quem aprova sente que tem mais coisa para ver, e tem. A empresa, olhando o que sai pela porta, pode não ver diferença.
É aqui que gestão e IA se cruzam de um jeito que mexe com receita. Proposta pronta que espera aprovação não vira contrato enquanto espera, e orçamento que volta duas vezes para ajuste chega ao cliente depois. Nada disso é falha de quem confere.
A velocidade foi acrescentada num trecho, e o trecho seguinte ficou do mesmo tamanho.
Na Nortix, o trabalho é implementação de IA e geração de receita para PMEs, e a forma como a gente olha uma empresa começa antes da ferramenta. O primeiro passo tem nome, Raio-X de Processos: mapear, área por área, por onde cada tarefa passa, quem a toca e onde ela espera. Depois vêm a Matriz de Priorização, que pesa impacto contra esforço, e a Validação com o Fundador.
Na nossa leitura, é aqui que a Validação com o Fundador pesa: acelerar um trecho não basta se ninguém olhou o que vem depois dele. Decidir o que continua passando pelo fundador, e o que pode sair dele com segurança, é decisão dele. A gente faz isso com o fundador, não por ele, e só então chega a Implementação e Retorno.
O caminho completo de como implementar IA na empresa está no nosso guia sobre o tema; por que essa ordem vem antes da escolha de ferramenta está em outro texto, sobre estrutura antes de ferramenta.
Dá para ver isso na própria empresa sem contratar ninguém e sem mudar nada por enquanto. Escolha um tipo de trabalho que a equipe já produz com ajuda de IA, como proposta, orçamento ou post. Durante duas semanas, anote três coisas por item: o dia em que ficou pronto, o dia em que saiu e se voltou para ajuste antes de sair.
Não precisa de ferramenta nova: uma planilha com uma linha por item e três colunas resolve. O que se anota é o caminho do trabalho, não o desempenho de quem o fez, e vale dizer isso à equipe antes de começar.
No fim, compare as datas. Se a maior parte do tempo está entre "pronto" e "saiu", a produção já anda depressa e o trabalho espera em outro trecho. Se muita coisa volta para ajuste, a pergunta seguinte é o que o ajuste costuma corrigir.
Duas semanas não dão conclusão estatística, e nem é essa a ideia. Dão um primeiro desenho de onde o trabalho espera, e isso já basta para escolher o que olhar primeiro.
O exercício não pede para ninguém conferir menos. Pede só para ver onde a fila se forma. A pergunta que importa deixa de ser se a IA aumenta a produtividade da empresa e passa a ser onde, na empresa, o trabalho espera.
De quem a usa, no estudo de Chen e Stratton, sim: os autores escrevem que assistentes e agentes aumentam a produtividade de codificação. A produtividade da empresa é outra medida, e no mesmo estudo o trabalho concluído não teve aumento estatisticamente significativo.
Pode não aparecer na mesma medida, quando o trabalho a mais encontra um ponto de passagem que não cresceu junto. No estudo, esse ponto foi a revisão de código. Fora do software, que esse ponto exista é leitura nossa, não dado, e onde ele fica só se descobre olhando a empresa.
Depende de onde o ganho de velocidade cai e do que vem depois dele. O estudo mostra que acelerar a produção não garante, sozinho, mais entrega. Não mostra que a IA não funciona.
Não diretamente. A amostra é de times de software, em empresas clientes da Jellyfish, sem recorte de PME nem do Brasil. O que se leva para outros negócios é a forma do achado, como hipótese, e não o número.
Não há indicação disso. É um working paper de doutorandos, na versão de 4 de agosto de 2026, com dados de uma plataforma que vende análise de engenharia, que leu o texto só para checar informação proprietária.